17 de abr de 2012

UM CARINHO DE UM AMIGO



UM CARINHO DE UM AMIGO


Formei-me padre bem cedo, desde menino mostrava vocação para o ministério de Deus. Éramos imigrantes alemães, ainda menino vim para cá, logo que Hitler começou a comandar a Alemanha, graças a Deus meus pais logo identificaram o déspota no poder, e no primeiro ano quando as coisas ainda eram mais fáceis, conseguimos vir. Meus pais na incerteza da nova terra, trabalhando como colonos, com uma prole de quatro filhos, ao perceberem o meu encantamento pela capela existente na fazenda, e o esforço que eu fazia para tentar estar sempre na cidade a fim de conversar com padre Mario, após acerto com o mesmo, me entregaram a ele, para que eu pudesse estudar e seguir minha vocação.
A guerra provocada por Hitler já havia tomado vulto, estava eu já com doze anos, e desta forma meus pais se sentiam mais tranqüilos em relação ao fato de serem alemães, povo que era odiado por mais da metade do mundo, inclusive o Brasil, ter um filho entregue a igreja, deixava claro a posição deles e de certa forma os protegia.
Formei-me, e apesar de visitar meus pais muitas vezes, não exerci o magistério na cidade de Santa Catarina que eles se fixaram, após trabalharem muitos anos como colonos, conseguiram seu próprio sítio, e com simplicidade continuaram a levar suas vidas.
Fui enviado a algumas igrejas, pelo interior de São Paulo, para ajuda dos párocos locais, depois fui enviado para o interior de Rio Grande do Sul, aonde permaneci uns dez anos, esperando que me dessem finalmente a minha paróquia. Já com quarenta e dois anos finalmente fui mandado para a paróquia de Nossa Senhora Aparecida em Cascavel – Pr, como pároco responsável, mas eu sentia que ali não seria a última igreja, entendi que seria um experimento, alguns anos talvez, no entanto ali permaneci muito tempo.
Foi ali, que um dia fui procurado por uma senhora que dizia que a nora, casada há pouco tempo com seu filho, era perseguida segundo ela por almas, que faziam que os seus filhos brigassem entre si, e que ela mesma a nora, com suas idéias espíritas, é que dava oportunidade para os maus espíritos infernizarem a vida da família.
Não costumava julgar, não costumava atirar pedras, mandei que me trouxesse a moça, logo após as treze horas, que eu conversaria com ela, e veria qual era o caso.
Próximos da hora marcada vieram, notei que a nora era jovem, e havia vindo de coração aberto, a acompanhavam o marido e a sogra, que imediatamente quando chamei a moça para o meu gabinete, tentou segui-la, eu a parei, disse-lhe que esperasse do lado de fora, que a conversa era entre eu e a jovem.
Meu Deus, que surpresa me aguardava, a menina que parecia tão quieta, quando iniciei o assunto, tornou-se outra, ela não falava coisas em vão, não ela sabia exatamente o que falava, demonstrava uma fé enorme, uma segurança que nunca tinha visto em alguém que defendia outra doutrina que não a católica, aliás entre os católicos, pelo menos entre os fiéis da igreja, eu não tinha encontrado fé igual.
Ela não havia estudado os livros sagrados que eu tinha, ela não tinha feito teologia, ela apenas tinha estudado a sua doutrina, ela me explicava tudo com uma lógica, que dois e dois somavam quatro, e quando para tentar pegá-la eu citei que não havia provas da reencarnação. Ela me respondeu o senhor não leu no evangelho que Jesus afirmou que João Batista era o próprio Elias?
Ah meus irmãos que sinuca de bico eu fiquei, aquela parte do evangelho ainda estava meio obscura para mim, como para a maioria dos padres, se o Santo Papa, os Bispos, tivessem a resposta nos teriam passado, ou então era um daqueles mistérios que a Igreja prefere manter oculto, dizendo-nos que ainda não estávamos preparados.
Por isso, eu disse-lhe que havia coisas na bíblia que não havia sido possível ainda desvendar, e ela me disse: Mas o evangelho segundo o espiritismo, explica direitinho, e me fez um breve esclarecimento sobre reencarnação, e o pior para mim naquela situação me disse: Deus para ser Deus tem que ser infinitamente justo, infinitamente bom, e se um pai da terra, não condena seu filho a uma prisão eterna, dando-lhe outra chance, o que dirá Deus que é infinitamente perfeito, Ele em sua bondade não manda ninguém para o inferno eterno, Ele promove outra oportunidade de evolução de seu filho, Ele dá chances a este filho para reparar seus erros, para resgatá-los.
Bem eu não podia ser desonesto, nem podia em minha posição dizer-lhe que tinha razão, mas fui humilde o suficiente para dizer a ela que sem estudar tal livro, eu não poderia debater com ela, eu precisava me aprofundar nos conhecimentos novos, ela me ofereceu o livro, mas nunca o trouxe.
Nossa conversa só parou porque meu ajudante espavorido entrou no gabinete, dizendo que o batizado que eu tinha em outra cidade já estava bem atrasado, eu já deveria estar lá. Acompanhei-a até a sua sogra e marido, esta me olhou e perguntou-me então o que o Sr. acha? E eu lhe respondi: Uma pena esta moça não ser católica, pois com a fé que ela tem, eu teria a melhor das ajudantes, ela seria de grande utilidade, Deus a abençoe.
Bem foi neste dia que comecei a me questionar, quando vi que ela não traria o livro, dei um jeito de adquirir um, e me espantei com a doutrina, mas não podia dialogar com ninguém, mas passei a ver os problemas dos paroquianos de outra forma, passei a ter mais fé e mais segurança no meu Senhor.
Não imaginam a minha alegria quando desencarnei e vi que realmente valeu a pena ouvir aquela menina, vi que a verdadeira vida é aqui, e que o Pai não cobra a religião de ninguém, apenas cobra a forma que mostramos o nosso amor nesta vida, o que vale são as nossas ações. É bem que ela disse que o Pai não condena ninguém, ninguém. O outro dia estando conversando com um irmão contei-lhe esta história e ele sorrindo me disse, gostaria de encontrá-la? Pois é, aqui estou, e você ao perceber já está chorando, não, não chore, obrigada minha amiga, por ter me aberto os olhos, obrigada.
Deus vos abençoe hoje e sempre,


Ditado por Padre Antonio
Psicografado por Luconiuito 

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